Brazilian Journal of Otorhinolaryngology Brazilian Journal of Otorhinolaryngology
Braz J Otorhinolaryngol 2017;83:373-4 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2017.05.011
Editorial
The multicultural evolution of beauty in facial surgery
A evolução multicultural da beleza na cirurgia facial
Eric W. Cerratia,, , J. Regan Thomasb
a University of Illinois at Chicago, Department of Otolaryngology‐Head and Neck Surgery, Division of Facial Plastic & Reconstructive Surgery, Chicago, EUA
b University of Illinois at Chicago, Department of Otolaryngology‐Head and Neck Surgery, Chicago, EUA

O conceito de beleza facial tem sido definido de várias maneiras, as quais remontam aos tempos antigos, e embora a definição continue a se desenvolver, tornou‐se claro que a beleza atravessa fronteiras étnicas e tem um impacto cultural e econômico significativo. Subconscientemente, a beleza é percebida pelos seres humanos como um sinal de genes favoráveis e aumento da fertilidade, que desempenham um papel na seleção do (a) parceiro (a). Como resultado, as características de atração percebidas que são subconscientemente selecionadas evoluíram muito mais rapidamente do que outras características naturalmente selecionadas. Além disso, os indivíduos belos são mais propensos a obter melhores notas na escola, ser contratados para um emprego, receber salários mais elevados e ser vistos como mais agradáveis, mais inteligentes e mais saudáveis.1 Embora tenha sido dito no passado que a beleza está “nos olhos de quem vê”, estudos mais recentes têm sugerido que a beleza é uma qualidade objetiva, quantificável.

Os gregos antigos iniciaram a busca de um padrão universal de beleza e acreditavam que ela era representada pela “proporção áurea” também conhecida como phi, que se pensava representar a harmonia perfeita.1–3 Na natureza, a proporção aparece na espiral das conchas, na taxa de crescimento da mandíbula humana e no DNA do anti‐helix. Exemplos de sua aplicação incluem arte egípcia e arquitetura, a sequência de Fibonacci e formas geométricas, como o pentágono e o decágono. Muitos ainda acreditam que phi também corresponde à beleza facial.3 No entanto, outros a consideram inexata. Por exemplo, Marquardt criou um padrão facial “ideal” baseado no phi, e não apenas ele se aplicava mal às pessoas de descendência não europeia/branca, mas também masculinizava as mulheres brancas.4

O conceito de beleza como uma fórmula continuou a evoluir com os artistas do período do Renascimento. Através de Da Vinci e seus contemporâneos, os ideais neoclássicos foram amplamente baseados no phi. Os artistas‐anatomistas dos séculos 17 e 19 propagaram esses novos padrões no campo médico, que criou uma definição “universal” de beleza para o período.2 Embora esses ideais continuem hoje a ter uma forte influência na análise facial e sirvam como uma diretriz para o planejamento cirúrgico, a pesquisa mostrou que esses ideais ainda não se aplicam transculturalmente.

Apesar da incapacidade de quantificar universalmente a beleza, os pesquisadores descobriram que existe um consenso sobre a avaliação da atratividade entre orientações sexuais, grupos étnicos e etários. Estudos têm demonstrado que diversas populações concordam sobre quem é e quem não é atraente. Além disso, mesmo os bebês têm uma preferência inata por rostos atraentes.1 Certas concepções de beleza facial ou atratividade podem ser eternas. Em 2006, Bashour pesquisou e desafiou cada um dos quatro conceitos. Ele concluiu que a atratividade subjetiva compreende apenas uma pequena porcentagem de preferência pessoal em relação a uma avaliação objetiva biológica muito maior de atratividade.5

Os quatro conceitos de beleza facial incluem simetria, proporcionalidade, juventude e dimorfismo sexual. Acredita‐se que o primeiro conceito de simetria represente uma alta qualidade de desenvolvimento. Uma face simétrica reflete a condição fenotípica e genética de uma pessoa, dá‐lhe uma vantagem na competição sexual. A proporcionalidade, o segundo conceito, é informada pela teoria darwiniana de que as pressões evolucionistas funcionam contra os extremos da população. Como resultado, os seres humanos apreciam inatamente o fato de que a média representa a heterozigosidade genética e uma maior resistência a doenças. O terceiro conceito é a juventude. Acredita‐se que as características neonatais, tais como olhos grandes e um nariz pequeno, sugerem qualidades desejáveis de jovialidade da juventude, da mente aberta e afabilidade. À medida que uma pessoa envelhece e seus tecidos moles caem, o rosto se desvia do padrão phi, resulta em uma diminuição na atratividade. Além disso, o cérebro humano interpreta as mudanças físicas do envelhecimento como uma diminuição da fertilidade. O quarto e último conceito de beleza é o dimorfismo sexual, definido como uma diferença fenotípica entre machos e fêmeas. Para as mulheres, o aumento do estrogênio leva ao desenvolvimento de características secundárias que sugerem uma hospedeira fértil e uma vantagem reprodutiva. Essas incluem uma mandíbula fina, queixo pequeno, grandes olhos amplamente espaçados, nariz pequeno, malares altos e lábios carnudos. Ao contrário, as características físicas desejáveis nos homens são aquelas que significam altos níveis de testosterona, tais como mandíbula proeminente, queixo quadrado, olhos profundos, lábios finos, sobrancelhas pesadas e pelos abundantes.1,2

Embora possa haver um acordo transcultural sobre a atratividade, cada etnia tem características únicas que são incorporadas à sua definição de “proporcionalidade”. Para o cirurgião plástico facial, essas características únicas devem ser respeitadas e consideradas para se criar um resultado harmonioso e elegante que satisfaça os critérios de beleza e atratividade. Como resultado, os ideais neoclássicos podem não servir como diretrizes precisas em pacientes não brancos. Especificamente na rinoplastia, existem diferenças anatômicas distintas entre o nariz leptorrino visto em brancos, o nariz platirrino visto em populações africanas e asiáticas e o nariz mesorrino visto em populações latino‐americanas.1 Os pacientes frequentemente desejam preservar sua identidade cultural, por isso é fundamental que o cirurgião claramente diferencie esses objetivos no período pré‐operatório.

A atual prática da cirurgia plástica facial típica tem se tornado cada vez mais multicultural. A sociedade moderna globalizada tem desempenhado um papel significativo na percepção da beleza. A mobilidade econômica, combinada com um aumento nos casais inter‐raciais, obscureceu as linhas de identidade étnica e os resultados esteticamente únicos e belos não permitem que os pacientes sejam caracterizados como se fossem encaixados em um molde estreito com desejos previsíveis.1 Os princípios clássicos da beleza, inclusive phi, simetria, proporcionalidade, juventude e dimorfismo sexual, ainda podem ser aplicados como diretrizes, mas o cirurgião deve incorporar uma visão mais ampla da análise facial e das técnicas cirúrgicas. A importância de identificar as identidades étnicas dos pacientes não pode ser subestimada, pois os pacientes podem querer apagar, preservar, modificar ou mesmo aprimorar esses traços inerentes específicos.

Além disso, a cirurgia cosmética continua a ser cada vez mais desejável e socialmente aceitável. O aumento da atenção e do interesse pode ser creditado à sua exposição em reality shows na televisão, mídias sociais e documentários cirúrgicos. O aumento da demanda e a crescente diversidade populacional garantem que cada paciente irá apresentar um contexto e objetivo cosmético únicos. O cirurgião deve ajudar os pacientes a atingir um objetivo que seja harmonioso com o seu rosto, obter um resultado atemporal, atraente, em vez de ser influenciado pelo desenvolvimento de uma tendência da moda. A orientação correta, o insight e o controle ético distinguem o cirurgião de um técnico. Mais importante ainda, essas qualidades preservam a integridade do campo da cirurgia plástica facial.

Embora modificações faciais possam ter um tremendo impacto na vida dos pacientes, o resultado planejado não deve se aventurar muito longe dos conceitos de beleza facial que definiram o campo desde a sua criação. Fotografias digitais, juntamente com imagens de computador, têm ajudado nas avaliações pré‐operatórias em um esforço para confirmar que o cirurgião e o paciente têm os mesmos objetivos estéticos. A tecnologia continuará a melhorar, a fim de facilitar essa discussão inicial. À medida que a sociedade evolui, a nossa compreensão da beleza e nossa tentativa de defini‐la cirurgicamente devem evoluir igualmente.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
1
D.M. Weeks,J.R. Thomas
Beauty in a multicultural world
Facial Plast Surg Clin N Am, 22 (2014), pp. 337-341
2
J.R. Thomas,T.K. Dixon
A global perspective of beauty in a multicultural world
JAMA Facial Plast Surg, 18 (2016), pp. 7-8 http://dx.doi.org/10.1001/jamafacial.2015.1563
3
E.P. Prokopakis,I.M. Vlastos,V.A. Picavet,G. Nolst Trenite,J.R. Thomas,C. Cingi
The golden ratio in facial symmetry
Rhinology, 51 (2013), pp. 18-21 http://dx.doi.org/10.4193/Rhino12.111
4
E. Holland
Marquardt's phi mask: pitfalls of relying on fashion models and the golden ratio to describe a beautiful face
Aesthetic Plast Surg, 32 (2008), pp. 200-208 http://dx.doi.org/10.1007/s00266-007-9080-z
5
M. Bashour
History and current concepts in the analysis of facial attractiveness
Plast Reconstr Surg, 118 (2006), pp. 741-756 http://dx.doi.org/10.1097/01.prs.0000233051.61512.65

Como citar este artigo: Cerrati EW, Thomas JR. The multicultural evolution of beauty in facial surgery. Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83:373–4.


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Braz J Otorhinolaryngol 2017;83:373-4 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2017.05.011