Brazilian Journal of Otorhinolaryngology Brazilian Journal of Otorhinolaryngology
Braz J Otorhinolaryngol 2017;83:98-104 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2016.12.003
Artigo de revisão
Obstructive sleep apnea and oral language disorders
Apneia obstrutiva do sono e alterações da linguagem oral
Camila de Castro Corrêaa,, , Maria Gabriela Cavalheirob, Luciana Paula Maximinob, Silke Anna Theresa Webera
a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FM‐UNESP), Faculdade de Medicina de Botucatu, Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia, Botucatu, SP, Brasil
b Universidade de São Paulo (FOB‐USP), Faculdade de Odontologia de Bauru, Departamento de Fonoaudiologia, Bauru, SP, Brasil
Recebido 14 Junho 2015, Aceitaram 10 Janeiro 2016
Resumo
Introdução

Crianças e adolescentes com Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) podem apresentar sonolência diurna, alterações de aprendizado, memória e atenção, que podem interferir na linguagem oral.

Objetivo

Verificar, com base na literatura, se a AOS apresenta correlação com alterações da linguagem oral.

Método

Foi feita revisão bibliográfica nas bases de dados Lilacs, Pubmed, Scopus e Web of Science, a partir das palavras‐chaves “Linguagem Infantil” AND “Apneia do Sono Tipo Obstrutiva”. Os artigos que não se relacionavam ao tema foram excluídos, bem como estudos com crianças que apresentassem outras comorbidades, além da AOS.

Resultados

Foram localizados 37 artigos na Pubmed, 47 na Scopus e 38 na Web of Science e nenhum na Lilacs. A partir dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados seis estudos, publicados de 2004 a 2014. Dos artigos incluídos, observou‐se em quatro artigos a relação do grupo com ronco primário/SAOS com a Linguagem Receptiva e em quatro artigos a relação dessa população com a Linguagem Expressiva. Ressalta‐se que os artigos usaram instrumentos diferentes e consideraram níveis diversificados da Linguagem.

Conclusão

O diagnóstico e o tratamento tardio de AOS resultam em alterações significantes na qualidade da aquisição verbal. Torna‐se imprescindível a atenção dos profissionais que atuam com a população infantil para esse aspecto, uma vez que grande parte dos sons da fala são adquiridos entre 3–7 anos, que corresponde ao período de pico de ocorrência de hipertrofia adenoamigdaliana e AOS na infância.

Abstract
Introduction

Children and adolescents with obstructive sleep apnea (OSA) may have consequences, such as daytime sleepiness and learning, memory, and attention disorders, that may interfere in oral language.

Objective

To verify, based on the literature, whether OSA in children was correlated to oral language disorders.

Methods

A literature review was carried out in the Lilacs, PubMed, Scopus, and Web of Science databases using the descriptors “Child Language” AND “Obstructive Sleep Apnea’. Articles that did not discuss the topic and included children with other comorbidities rather than OSA were excluded.

Results

In total, no articles were found at Lilacs, 37 at PubMed, 47 at Scopus, and 38 at Web of Science databases. Based on the inclusion and exclusion criteria, six studies were selected, all published from 2004 to 2014. Four articles demonstrated an association between primary snoring/OSA and receptive language and four articles showed an association with expressive language. It is noteworthy that the articles used different tools and considered different levels of language.

Conclusion

The late diagnosis and treatment of obstructive sleep apnea is associated with a delay in verbal skill acquisition. The professionals who work with children should be alert, as most of the phonetic sounds are acquired during ages 3–7 years, which is also the peak age for hypertrophy of the tonsils and childhood OSA.

Keywords
Child language, Language disorders, Speech, language and hearing sciences, Obstructive sleep apnea
Palavras‐chave
Linguagem infantil, Transtornos da linguagem, Fonoaudiologia, Apneia do sono tipo obstrutiva
Introdução

A apneia obstrutiva do sono (AOS) é caracterizada pela obstrução parcial e/ou completa das vias aéreas superiores durante o sono, associada ao aumento do esforço respiratório, sono fragmentado e/ou anormalidades nas trocas gasosas.1,2 Em crianças, distingue‐se do quadro observado em adultos quanto a fisiopatologia, quadro clínico e tratamento.2 Com relação à fisiopatologia, a AOS em crianças tem um padrão predominante de obstrução parcial e persistente de vias aéreas superiores, implica hipercapnia e hipóxia intermitente.3 O ronco, principal sintoma de AOS, se faz presente no quadro clínico de praticamente todas as crianças com essa alteração. Também fazem parte do quadro clínico sinais e sintomas como respiração bucal forçada, com retrações costais, sonambulismo, enurese e sudorese noturna, tosse, engasgos e agitação durante o sono, é comum a movimentação em busca de posições que facilitem a passagem aérea.4 Já o tratamento difere do aplicado nos adultos, a adenotonsilectomia é aquele considerado como padrão ouro e, quando feito no momento adequado, beneficia a criança em aspectos neuropsicológicos, comportamentais e de qualidade de vida, ressalta‐se que esse sucesso apresenta menor taxa em crianças obesas.5,6

Estima‐se que a prevalência de AOS em crianças saudáveis, sem outro quadro clínico associado, varia de 0,7 a 3%.7–10 A incidência é maior na idade pré‐escolar, faixa etária na qual há maior desproporção entre a hipertrofia das tonsilas palatinas e faríngea e as dimensões das vias aéreas superiores.5 Essa fase é marcada também como privilegiada para a aquisição e o desenvolvimento da linguagem e intensa neuroplasticidade do sistema nervoso central, o que favorece a aprendizagem.11–14

Dentre as consequências da AOS em crianças, considera‐se a associação com déficits de atenção e de memória, o que pode comprometer o processamento e o registro de informações e reduzir a capacidade de aprendizado.15–17 Soma‐se, ainda, influência desse quadro no humor nas habilidades linguísticas expressivas, no desempenho escolar, nas habilidades cognitivas e na percepção visual dessa população.18–20

Tendo em vista a frequência relatada na literatura da AOS durante importante fase do desenvolvimento de crianças pré‐escolares e a influência em habilidades envolvidas no processo de aquisição da linguagem, aprendizagem e desempenho escolar, torna‐se relevante averiguar o desenvolvimento da linguagem oral nessas crianças. Há evidências fortes da associação entre AOS e déficit neurocognitivo,6,17,19 mas não é possível localizar na literatura estudos que enfoquem o desenvolvimento de linguagem especificamente.

Para a compreensão da linguagem oral nessa população, devem‐se investigar habilidades psicolinguísticas de modo amplo, desde a linguagem receptiva, que é definida pela capacidade da compreensão da linguagem em diferentes aspectos, como a compreensão da entonação da voz do outro durante a fala e a do significado das palavras, estejam elas em diferentes contextos e complexidades; até a linguagem expressiva, que se refere à capacidade de organização do sistema linguístico na programação motora; e, por fim, na verbalização de uma sequência de símbolos e significados, no caso da linguagem oral, o que resulta na habilidade de se expressar verbalmente.21–23

A observação e a mensuração de todos esses níveis linguísticos são possíveis apenas a partir da aplicação de protocolos desenvolvidos especificamente para a língua de origem do paciente e que apresentem escores comparativos com o parâmetro de normalidade para cada faixa etária. O único estudo que detalha esse aspecto é uma revisão sistemática que localizou, para a avaliação da linguagem oral receptiva, os seguintes testes: Peabody Picture Vocabulary Test, Peabody Picture Vocabulary Test‐Revised (PPVT‐R), Swedish Communication Screening at 18 months of age (SCS18), Test for Reception of Grammar – 2 (TROG‐2), Reynell Test, Reynell Development Language Scales e Reynell Developmental Language Scales–II. Ressalta‐se que são escassos os instrumentos e que nem todos apresentam estudos de validade.24

Dessa forma, o presente estudo teve por objetivo verificar se a AOS apresenta correlação com possíveis alterações da linguagem oral.

Método

Foi feita busca na literatura sem delimitação temporal, por meio do cruzamento das palavras‐chave “Linguagem Infantil” AND “Apneia do Sono Tipo Obstrutiva”, bem como seus correspondentes em inglês, “Child Language” AND “Sleep Apnea Obstructive”. Para isso, foram consultadas quatro bases de dados: Lilacs, PubMed, Scopus e Web of Science.

Como critérios de inclusão, foram admitidos artigos que trouxessem a temática central de crianças/adolescentes com AOS e apresentassem o enfoque em alterações na linguagem oral. Assim, compreenderam os critérios de exclusão: artigos que apresentassem outros quadros clínicos coexistentes que justificassem a alteração do sono ou da linguagem, como, por exemplo, fissura labiopalatina, síndromes genéticas (Down, craniossinostoses e velocardiofacial) e TDAH; com o foco em alterações motoras da fala, como apraxia de fala, e artigos de revisão de literatura. Ressalta‐se que a busca foi feita pelo sistema VPN (Virtual Private Network); os artigos que não se apresentaram disponíveis na íntegra também foram excluídos.

A seleção foi feita mediante a leitura dos títulos e resumos. Em seguida, foram acessados e analisados os artigos na íntegra, para que fossem definitivamente admitidos ou não no estudo. Os artigos incluídos foram analisados quanto aos seus objetivos, métodos, resultados e conclusões. Também foram analisados os resultados específicos das avaliações referentes a linguagem oral e sua especificação (receptiva e/ou expressiva) e apontadas as limitações de cada estudo.

Resultados

Mediante a busca feita, foram localizados 37 artigos na PubMed, 47 na Scopus e 38 na Web of Science e nenhum na Lilacs.

Em primeira análise, considerando a leitura dos títulos e resumos, foram selecionados oito estudos. A localização em uma ou mais bases de dados dos artigos selecionados é apresentada na figura 1.

Figura 1.
(0.06MB).

Descrição da base de dados dos resumos considerados, em quantidade, quando foram localizados em mais de uma base.

Para a apuração final, todos os artigos foram lidos na íntegra, exceto dois, que não se apresentavam inteiramente disponíveis e foram excluídos do estudo. Assim, a tabela 1 traz os seis estudos incluídos no presente trabalho, com informações sobre autoria, ano, periódico e base de dados em que foram localizados, por ordem crescente cronológica.

Tabela 1.

Dados de autoria, ano, periódico e base de dados dos artigos considerados no estudo

Autor  Ano  Periódico  Base de dados 
O’Brien LM, Mervis CB, Holbrook CR, Bruner JL, Klaus CJ, Rutherford J, Raffield TJ, Gozal D25  2004  Pediatrics  PubMed – Web – Scopus 
Kurnatowski P, Putyński L, Lapienis M, Kowalska B26  2006  Int J Pediatr Otorhinolaryngol  PubMed – Web – Scopus 
Andreou G, Agapitou P27  2007  Archives of Clinical Neuropsychology  Web of Science 
Landau YE, Bar‐Yishay O, Greenberg‐Dotan S, Goldbart AD, Tarasiuk A, Tal A28  2012  Pediatric Pulmonology  PubMed 
Liukkonen K, Virkkula P, Haavisto A, Suomalainen A, Aronen ET, Pitkäranta A, Kirjavainen T29  2012  Int J Pediatr Otorhinolaryngol  PubMed – Web – Scopus 
Yorbik, O; Mutlu C, Koc D, Mutluer, T30  2014  Sleep and Biological Rhythms  Web – Scopus 

A tabela 2 traz a análise dos artigos considerados.

Tabela 2.

Informações sobre objetivo, casuística, métodos e resultados (especificamente a respeito da linguagem oral) dos artigos considerados no estudo

Autor, ano  ObjetivoCasuísticaMétodos – enfoque na Linguagem OralCritério de diagnóstico da AOSResultados – enfoque na linguagem oralLinguagem receptiva e/ou expressivaLimitação do estudo
Desenho do estudo 
O’Brien et al., 200425  Avaliar a associação do ronco primário e déficits neurocomportamentais em crianças.87 crianças com ronco primário e 31 saudáveis de 5 a 7 anos.Usado o NEPSY.Diagnóstico de ronco primário por PSG, considerando o IA<1; IAH<5 e sem mudanças anormais nas trocas gasosas.A linguagem apresentou resultados significativamente menores para o grupo de ronco primário do que para o grupo controle.Linguagem receptiva e expressivaNão realizou exames para verificar a audição.
Transversal 
Kurnatowski et al., 200626  Analisar alterações neurocognitivas (coordenação sensório‐motora, percepção, memória, aprendizagem abitur, concentração, atenção concentrada e recepção da linguagem) em crianças com AOS devido à hipertrofia adenotonsilar.221 crianças no total.
117 crianças com SAOS: 87 com idade entre 6 e 9 anos e 34 de 10 a 13 anos.
104 crianças saudáveis.
Token test (TT) – para verificar o nível de integração sensório‐motor, processos de percepção e de linguagem receptiva.Diagnóstico de SAOS por PSG com IAH>1, dessaturação do oxigênio < 92%.Os grupos de crianças com SAOS apresentaram resultados abaixo das crianças saudáveis quanto à linguagem receptiva.Linguagem receptivaNão realizou exames para verificar a audição.
Transversal 
Andreou e Agapitou, 200727  Analisar se a AOS na infância pode ter relação com a fluência verbal e desempenho escolar.40 adolescentes: 20 com AOS e 20 do grupo controle. Idade média: 18,41 anos.Dois testes de fluência verbal padronizados para o grego, quanto aos aspectos semânticos e fonológicos.Diagnóstico de AOS por PSG, com IAH>10 e/ou SaO2<95% por evento, e frequência cardíaca>60 batimentos por minuto.Notou‐se diferença nos aspecto fonológico e semântico, comparando as crianças com e sem AOS. Adolescentes com AOS apresentaram resultados piores.Linguagem expressivaNão realizou exames para verificar a audição e a cognição.
Transversal 
Landau et al., 201228  Analisar a hipótese de as funções comportamentais e cognitivas de crianças pré‐escolares com AOS serem prejudicadas, em comparação com crianças saudáveis. Verificar se houve melhoria após adenoamigdalectomia.45 crianças com AOS e 26 crianças saudáveis, de 2,5 a 5 anos.Aplicado o teste Kaufman Assessment Battery for Children (K‐ABC).Diagnóstico de AOS por PSG com IAH>1.Antes da cirurgia, o grupo com AOS apresentou pior desempenho na fluência verbal, sendo que, após a cirurgia, houve melhora nesse aspecto.Linguagem expressivaNão realizou exames para verificar a audição.
Transversal 
Liukkonen et al., 201229  Avaliar a relação entre os distúrbios respiratórios do sono e a função cognitiva em crianças.44 crianças com ronco primário e 51 saudáveis, de 1 a 6 anos.Usado o NEPSY (compreensão das instruções, nomeação rápida e nomeação de partes do corpo).Diagnóstico de ronco primário por PSG com IAH<1. Hipopneia foi definida como redução do volume do fluxo de ar em<50%, seguido por despertar e dessaturação da oxiemoglobina de > 2%.O grupo de crianças com ronco primário obteve as menores pontuações em funções da linguagem (compreensão das instruções, nomeação rápida).Linguagem receptiva e expressivaNão fez exames para verificar a audição.
Transversal 
Yorbik et al., 201430  Investigar os efeitos do ronco e do sono fragmentado sobre o desenvolvimento mental em crianças pré‐escolares.212 crianças, sendo 37 com queixas de ronco e 25 com queixas de fragmentação do sono, de 3,1 a 6 anos.Usado o teste de imagens Peabody.Questionário.Crianças com queixas de ronco e as com sono fragmentado apresentaram menores escores na linguagem.Linguagem receptivaNão realizou o exame de PSG e para verificar a audição.
Transversal 

IA, índice de apneia; IAH, índice de apneia e hipopneia; PSG, polissonografia.

Discussão

Os atuais estudos a respeito da AOS têm apresentado a característica primordial da interdisciplinaridade devido aos possíveis comprometimentos, variados e heterogêneos, que essa condição pode ocasionar. Necessitam, assim, de uma visão holística do indivíduo para um tratamento mais assertivo.

Como resultado da busca feita, pôde‐se averiguar que os artigos selecionados sobre a linguagem oral foram publicados recentemente. Deve‐se considerar que o diagnóstico da AOS tem aumentado nos últimos anos,31 o que pode justificar o aumento de crianças com AOS e o número maior de pesquisas científicas atuais que investigam esses aspectos.

A maioria dos trabalhos foi publicada em periódicos relacionados à área da Pediatria (quatro), um na Medicina do Sono e um Neuropsicologia. Ressalta‐se que não foram encontradas publicações em periódicos da área da Fonoaudiologia, profissão responsável pela compreensão e atuação nos aspectos fonoaudiológicos da função auditiva periférica e central, função vestibular, linguagem oral e escrita, voz, fluência, articulação da fala e dos sistemas miofuncional, orofacial, cervical e de deglutição.32

De modo geral, os estudos analisados apresentaram como objetivo avaliar as funções comportamentais e neurocognitivas, um trabalho investigou a fluência verbal e o desempenho escolar. Desse modo, não houve enfoque exclusivo de análise da linguagem oral, que procurasse compreendê‐la efetivamente em todos seus níveis. Para a compreensão dessa linguagem, devem ser consideradas as competências da linguagem expressiva e da linguagem receptiva, ou seja, os processos de organização e expressão do pensamento que, enquanto comportamento regrado, podem ser descritos pelos aspectos: fonológico (inventário de sons de uma língua e as regras de combinação para formar unidades significativas); sintático (regras de produção verbal enquanto estrutura, levando em consideração a análise morfológica e gramatical); semântico (caracterizada pelo repertório lexical e relacionado ao significado das palavras e suas combinações) e pragmático (regras relacionadas a intencionalidade, contexto e funcionalidade da fala).33–36

Além disso, considerando que o desenvolvimento da linguagem ocorre de forma gradual, respeita a maturação da criança e é influenciado pelas relações estabelecidas pelo meio ambiente que está inserido,32 a faixa etária da casuística contemplada nos estudos incluídos na presente pesquisa foi um fator limitante, devido a sua alta variabilidade, que impediu comparações. Ressalta‐se que três estudos avaliaram crianças até 6 anos,27,29,30 um avaliou de 5 a 7 anos,25 outro apresentou crianças de 6 a 13 anos26 e, por último, houve a avaliação de adolescentes.28

O desenvolvimento da linguagem é caracterizado pela presença de alguns marcadores, um deles é o período de 4 a 7 anos, no qual a criança passa a produzir sons mais complexos, de forma gradual, inicia pela produção adequada de palavras mais simples e até palavras mais longas.35 Em relação à casuística apresentada, observou‐se em quatro trabalhos a idade máxima de 7 anos e outros dois consideraram crianças de faixa etária acima da idade prevista para a estabilidade do sistema fonológico. Apesar de não ser possível estabelecer relações entre as amostras quanto ao desenvolvimento fonológico, devido ao intervalo da faixa etária, cabe ressaltar que o período entre 3 e 7 anos é o pico de ocorrência de hipertrofia de adenoide em crianças com AOS37 e é também quando grande parte dos sons da fala é adquirida.35

Os estudos diferem ainda pelas características do sono, em três artigos foram consideradas crianças com AOS diagnosticadas por meio do exame de PSG, dois compostos por crianças com ronco primário e um estudo que não apontou entre seus métodos a PSG, caracterizou a amostra apenas com uso de questionários. A definição do diagnóstico da AOS por meio da PSG, bem como seu grau, é necessária para possibilitar a correlação das alterações da linguagem oral com a estimativa do comprometimento fisiológico.38 Ressalta‐se ainda que, nos cinco estudos que constaram a PSG nos métodos, os critérios/parâmetros adotados para considerar a AOS também diferiram (variaram de IAH>1 até IAH>10). Dessa forma, torna‐se difícil a comparação entre os estudos incluídos, e, considerando que todos apresentam o desenho transversal, o nível de evidência trazido por eles é intermediário.

No que tange à metodologia de análise da linguagem, mediante os diferentes testes usados para avaliar a linguagem oral (Kaufman, Peabody, Token, Nepsy e um teste grego não especificado), não foi possível uma comparação minuciosa dos resultados apurados. Isso sugere a necessidade de pesquisas com a padronização desses protocolos, favorece maior entendimento da correlação da AOS com a linguagem oral. Entretanto, apesar da ausência de índices estatísticos que comparem os resultados da presente pesquisa, há crescente evidência do comprometimento da linguagem oral nos casos de AOS.

Nos que se refere aos níveis da linguagem oral, nos resultados dos estudos citados foram encontradas dificuldades nos níveis semânticos, fonológicos e de fluência verbal. Alguns autores buscaram explicar como o desempenho neurocognitivo de crianças pode ser afetado pelas alterações de sono. Além disso, afirma‐se que os déficits de linguagem e fluência verbal podem ser explicados pelo efeito cumulativo da interrupção na arquitetura do sono associado ao período de maturação neurológica, que, ao longo dos anos, interfere no desenvolvimento das redes sinápticas neuronais e que ocorre de maneira rápida e intensa em crianças.19,39 Os déficits de fluência verbal ainda estão associados à disfunção no córtex pré‐frontal.40,41

Dessa forma, o diagnóstico e o tratamento precoces devem ser enfatizados, não só pelas possíveis implicações na linguagem oral, como demonstrado nos estudos revisados da literatura, que tendem a se agravar conforme a idade cronológica da criança,27 mas também pelos benefícios no desempenho neurocognitivos e na qualidade de vida dessas crianças.18,42–44

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
1
American Academy of Sleep Medicine
The AASM manual for the scoring of sleep and associated events: rules, terminology, and technical specifications
1st ed., Illinois, (2007)
2
E.S. Katz,C.M. D’Ambrosio
Pediatric obstructive sleep apnea syndrome
Clin Chest Med, 31 (2010), pp. 221-234 http://dx.doi.org/10.1016/j.ccm.2010.02.002
3
C.L. Marcus
Pathophysiology of childhood obstructive sleep apnea: current concepts
Resp Physiol, 119 (2000), pp. 143-154
4
American Academy of Pediatrics
Clinical practice guideline diagnosis and management of childhood obstructive sleep apnea syndrome
Pediatrics, 109 (2002), pp. 704-712
5
C.L. Marcus,L.J. Brooks,K.A. Draper,D. Gozal,A.C. Halbower,J. Jones
Diagnosis and management of childhood obstructive sleep apnea syndrome
Pediatrics, 130 (2012), pp. 1-9 http://dx.doi.org/10.1542/peds.2012-1014
6
C.L. Marcus,R.H. Moore,C.L. Rosen,B. Giordani,S.L. Garetz,H.G. Taylor
A randomized trial of adenotonsillectomy for childhood sleep apnea
N Engl J Med, 368 (2013), pp. 2366-2376 http://dx.doi.org/10.1056/NEJMoa1215881
7
American Thoracic Society
Cardiorespiratory sleep studies in children
Am J Respir Crit Care Med, 160 (1999), pp. 1381-1387 http://dx.doi.org/10.1164/ajrccm.160.4.16041
8
L. Brunetti,S. Rana,M.L. Lospalluti,A. Pietrafesa,R. Francavilla,M. Fanelli
Prevalence of obstructive sleep apnea syndrome in a cohort of 1207 children of southern Italy
Chest, 120 (2001), pp. 1930-1935
9
A. Sogut,R. Altin,L. Uzun,M.B. Ugur,M. Tomac,C. Acun
Prevalence of obstructive sleep apnea syndrome and associated symptoms in 3–11‐year‐old Turkish children
Pediatr Pulmonol, 39 (2005), pp. 251-256 http://dx.doi.org/10.1002/ppul.20179
10
E.O. Bixler,A.N. Vgontzas,H.M. Lin,D. Liao,S. Calhoun,A. Vela-Bueno
Sleep disordered breathing in children in a general population sample: prevalence and risk factors
Sleep, 32 (2009), pp. 731-736
11
J.L. Zorzi
A intervenção fonoaudiológica nas alterações de linguagem infantil
Revinter, (2002)
12
H.D. Nelson,P. Nygren,M. Walker,R. Panoscha
Screening for speech and language delay in preschool children: systematic evidence review for the US Preventive Services Task Force
Pediatrics, 117 (2006), pp. 298-310
13
C.E.N. Oliveira,M.E. Salina,N.F. Annunciato
Fatores ambientais que influenciam a plasticidade do SNC
Acta Fisiátrica, 8 (2001), pp. 6-13
14
V. Anderson,M. Spencer-Smith,A. Wood
Do children really recover better? Neurobehavioural plasticity after early brain insult
Brain, 134 (2011), pp. 2197-2221 http://dx.doi.org/10.1093/brain/awr103
15
J. Owens,A. Spirito,A. Marcotte,M. McGuinn,L. Berkelhammer
Neuropsychological and behavioral correlates of obstructive sleep apnea syndrome in children: a preliminary study
Sleep Breath, 4 (2000), pp. 67-78 http://dx.doi.org/10.1055/s-2000-19814
16
S. Blunden,K. Lushington,D. Kennedy,J. Martin,D. Dawson
Behavior and neurocognitive performance in children aged 5–10 years who snore compared to controls
J Clin Exp Neuropsychol, 22 (2000), pp. 554-568 http://dx.doi.org/10.1076/1380-3395(200010)22:5;1-9;FT554
17
J.D. Kennedy,S. Blunden,C. Hirte,D.W. Parsons,A.J. Martin,E. Crowe
Reduced neurocognition in children who snore
Pediatr Pulmonol, 37 (2004), pp. 330-337 http://dx.doi.org/10.1002/ppul.10453
18
D. Gozal
Sleep‐disordered breathing and school performance in children
Pediatrics, 102 (1998), pp. 616-620
19
D.W. Beebe,D. Gozal
Obstructive sleep apnea and the prefrontal cortex: towards a comprehensive model linking nocturnal upper airway obstruction to daytime cognitive and behavioral deficits
J Sleep Res, 11 (2002), pp. 1-16
20
S.F.H. Uema,S.S.N. Pignatari,R.R. Fujita,G.A. Moreira,M. Pradella-Hallinan,L. Weckx
Avaliação da função cognitiva da aprendizagem em crianças com distúrbios obstrutivos do sono
Rev Bras Otorrinolaringol, 73 (2007), pp. 315-320
21
H.M. Feldman,T.F. Campbell,M. Kurs-Lasky,Rockette
Concurrent and predictive validity of parent reports of child language at ages 2 and 3 years
22
J.A. Rondal,E. Esperet,J.E. Gombert,J.P. Thibaut,A. Comblain
Desenvolvimento da linguagem oral
Manual de desenvolvimento e alterações da linguagem na criança e no adulto, pp. 17-86
23
S. Smeekens,J.M. Riksen-Walraven,H.J.A. van Bakel
Profiles of competence and adaptation in preschoolers as related to the quality of parent–child interaction
J Res Pers, 42 (2008), pp. 1490-1499
24
L.G. Gurgel,R.D.M. Plentz,M.C.R.A. Joly,C.T. Reppold
Instrumentos de avaliação da compreensão de linguagem oral em crianças e adolescentes: uma revisão sistemática da literatura
Rev Neuropsicol Latinoamericana, 2 (2010), pp. 1-10
25
L.M. O’Brien,C.B. Mervis,C.R. Holbrook,J.L. Bruner,C.J. Klaus,J. Rutherford
Neurobehavioral implications of habitual snoring in children
Pediatrics, 114 (2004), pp. 44-49
26
P. Kurnatowski,L. Putyński,M. Lapienis,B. Kowalska
Neurocognitive abilities in children with adenotonsillar hypertrophy
Int J Pediatr Otorhinolaryngol, 70 (2006), pp. 419-424 http://dx.doi.org/10.1016/j.ijporl.2005.07.006
27
G. Andreou,P. Agapitou
Reduced language abilities in adolescents who snore
Arch Clin Neuropsychol, 22 (2007), pp. 225-229 http://dx.doi.org/10.1016/j.acn.2006.12.008
28
Y.E. Landau,S. Bar-Yishay Greenberg-Dotan,A.D. Goldbart,A. Tarasiuk,A. Tal
Impaired behavioral and neurocognitive function in preschool children with obstructive sleep apnea
Pediatr Pulmonol, 47 (2012), pp. 180-188 http://dx.doi.org/10.1002/ppul.21534
29
K. Liukkonen,P. Virkkula,A. Haavisto,A. Suomalainen,E.T. Aronen,A. Pitkäranta
Symptoms at presentation in children with sleep‐related disorders
Int J Pediatr Otorhinolaryngol, 76 (2012), pp. 327-333 http://dx.doi.org/10.1016/j.ijporl.2011.12.002
30
O. Yorbik,C. Mutlu,D. Koc,T. Mutluer
Possible negative effects of snoring and increased sleep fragmentation on developmental status of preschool children
Sleep Biol Rhythms, 12 (2014), pp. 30-36
31
F.C.P. Valera,R.C. Demarco,W.T. Anselmo-Lima
Síndrome da apneia e da hipopnéia obstrutivas do sono (SAHOS) em crianças
Rev Bras Otorrinolaringol, 70 (2004), pp. 232-237
32
Conselho Federal de Fonoaudiologia. Exercício profissional do fonoaudiólogo 2002. Brasília (DF): CFF; 2002 [cited 21 Mar 2015]. Available from: http://www.fonoaudiologia.org.br/publicacoes/epdo1.pdf
33
S.R.V. Hage,M.M. Resegue,D.C.S. Viveiros,E.F. Pacheco
Análise do perfil das habilidades pragmáticas em crianças pequenas normais
Pró‐Fono Rev Atualização Científica, 19 (2007), pp. 49-58
34
D.R. Boone,E. Plante
A comunicação humana e seus distúrbios
Artes Médicas, (1983)
35
H.F. Wertzner
Fonologia: desenvolvimento e alterações
Tratado de Fonoaudiologia, 1a ed, pp. 772-786
36
B.F. Pennington,D.V. Bishop
Relations among speech, language, and reading disorders
Rev Psychol, 60 (2009), pp. 283-306
37
M. Greenfeld,R. Tauman,A. DeRowe,Y. Sivan
Obstructive sleep apnea syndrome due to adenotonsillar hypertrophy in infants
Int J Pediatr Otorhinolaryngol, 67 (2003), pp. 1055-1060
38
C.M. Ryan,T.D. Bradley
Pathogenesis of obstructive sleep apnea
J Appl Physiol, 99 (2005), pp. 2440-2450 http://dx.doi.org/10.1152/japplphysiol.00772.2005
39
L.M. O’Brien,D. Gozal
Behavioral and neurocognitive implications of snoring and obstructive sleep apnea in children: facts and theory
Pediatric Respir Rev, 3 (2002), pp. 3-9
40
J. Desmond,J. Fiez
Neuroimaging studies of the cerebellum: language, learning, and memory
Trends Cogn Sci, 2 (1998), pp. 355-362
41
J.S. Janowski,A.P. Shimamura,L.R. Squire
Source memory impairment in patients with frontal lobe lesions
Neuropsychologia, 27 (1989), pp. 1043-1056
42
N.A. Goldstein,J.C. Post,R.M. Rosenfeld,T.F. Campbell
Impact of tonsillectomy and adenoidectomy on child behavior
Arch Otolaryngol Head Neck Surg, 126 (2000), pp. 494-499
43
B.C. Friedman,A. Hendeles-Amitai,E. Kozminsky,A. Leiberman,M. Friger,A. Tarasiuk
Adenotonsillectomy improves neurocognitive function in children with obstructive sleep apnea syndrome
Sleep, 26 (2003), pp. 999-1005
44
A.P.S. Balbani,S.A.T. Weber,J.C. Montovani,L.R. Carvalho
Pediatras e os distúrbios respiratórios do sono na criança
Rev Assoc Med Bras, 51 (2005), pp. 80-86 http://dx.doi.org//S0104-42302005000200014

Como citar este artigo: Corrêa CC, Cavalheiro MG, Maximino LP, Weber SA. Obstructive sleep apnea and oral language disorders. Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83:98–104.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

Autor para correspondência. (Camila de Castro Corrêa camila.ccorrea@hotmail.com)
Copyright © 2016. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial
Braz J Otorhinolaryngol 2017;83:98-104 DOI: 10.1016/j.bjorlp.2016.12.003